Retomada

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A pergunta que deve habitar a cabeça de quase qualquer cidadão do planeta agora é: como será o processo de desconfinamento? Essa é uma pergunta bem razoável, considerando que a vida das pessoas do globo inteiro foi transformada radicalmente por conta do covid. Ultrapassamos a fase do medo absurdo e da desorientação e chegamos a um estágio um pouco mais lúcido que já nos permite fazer previsões mais acertadas. E a resposta para a pós-quarentena nunca foi tão óbvia: precisamos pedalar. 

Em primeiro lugar, é importante entender que o desafio que o coronavírus nos impôs é de natureza essencialmente logística e ecológica. Até termos a cura absoluta para a doença e ela estiver disponível para todos, o presente terá que lidar com essas duas questões mencionadas anteriormente. Ou seja, como vamos nos locomover no espaço (viés logístico) e como vamos tornar essa locomoção no espaço viável e sustentável (viés ecológico) serão decisivos nesse novíssimo futuro. Os dois vieses parecem apontar para o mesmo denominador e nesse quociente está muito claro que o transporte público aglomerado e produtor de tanto carbono ruim não tem vez.

A Retomada que aos poucos já acontece conta com empresas exigindo que seus funcionários evitem ônibus, trem e metrô. O contágio em massa da força de trabalho tornaria qualquer trabalho inviável. O carro seria a primeira resposta. Especialmente porque para algumas distâncias, transportes suaves como a bike, patinete ou skate não dão conta. Porém, usar carro é a alternativa mais cara de todas. Talvez a solução melhor é oferecer aos trabalhadores alternativas multimodais em que todos os trechos ou a maioria deles se constitui de transportes menos gregários. 

Exemplos de que essa transição para meios mais suaves vai acontecer não faltam. Na Suíça já se verificou um aumento no uso de bicicleta durante a pandemia e uma queda dos outros meios de transporte. Na Holanda, país onde a questão da bike já está bem mais avançada, o governo já estuda reformar as ciclovias existentes porque já sabem que as pessoas vão recorrer mais à magrela por medo de transporte público. Algumas empresas pelo globo já estão adquirindo bikes elétricas para seus funcionários. Primeiro porque perceberam que o trabalho em home office não dá conta de tudo e que a eficiência pode até cair durante o confinamento. Assim como a clareza na comunicação fica também comprometida, porque resoluções em espaços 100% virtuais normalmente geram dúvida. Além disso, seus funcionários relatam se sentirem mais felizes percorrendo o trecho casa-trabalho de bike. Isso acarreta mais felicidade de trabalhar e melhores performances. 

No Brasil a questão é mais delicada. As distâncias sociais e a gentrificação fazem com que a força de trabalho não tenha dinheiro para se locomover de uma forma segura e em geral que a distância seja enorme entre casa-trabalho. Afeta também muito a questão cultural. Nós brasileiros não temos o hábito de pedalar, muito menos como forma de locomoção venal, do dia-a-dia. Bike ainda é visto como lazer e, como tal, descartável. Mas mesmo culturas são mutáveis. Novas condições exigem novas práticas. Na esfera política, já se vê muito pré-candidato trazendo seus feitos dentro da mobilidade urbana alternativa para conquistar espaço nas eleições municipais de 2020 (?) e certamente nas estaduais/federais de 2022. Mas a questão continua a mesma que a Camelo Urbano já levanta desde o início: precisamos de ciclovias decentes. Mesmo sendo um crime forçar alguém a sair nesse contexto, alguns trabalhos não têm alternativa. E pra muitos, a bike será a única opção. E bike não circula em ciclovia destruída ou inexistente. 

O sentido ecológico também é evidente. O covid é essencialmente uma problemática ambiental. É porque o homem adultera ecossistemas herméticos e independentes que ele se vê diante de chagas mundiais como a que nos assola agora. Não vai demorar muito para as pessoas perceberem que se não cuidarmos do planeta da maneira correta, pandemias como essa serão constantes nas nossas vidas. Até não existir mais planeta para destruir. E nessa questão, mais uma vez a bicicleta se mostra uma opção promissora. Não dá pra continuar poluindo o mundo com o carro e o momento de vulnerabilidade atual deixa essa perspectiva mais clara.

Por isso, não é precipitado constatar que só o transporte alternativo nos deixará continuar na Terra e dentre os vários que existem, a bike é a mais viável e,  convenhamos, mais agradável também. 

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