Novo desenho policêntrico das cidades

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Talvez algumas pessoas não estejam percebendo, mas as tensões e o contingenciamentos criados pelo covid-19 está reacendendo um debate antigo, que remonta no Rio à década de 90. Quais seja? O embate entre bicicleta e carro. A ciclovia do Marcelo Alencar já era um aceno inicial para esse problema da aglomeração dos centros urbanos. O Brasil havia se industrializado bastante e com isso era natural um êxodo para as cidades. Isso a ponto de fazer com elas não dessem conta do volume de pessoas que precisavam se locomover, ir ao trabalho, escola, universidade, passeio. 

A pandemia dá um novo tom e uma nova camada para esse debate. Agora, estamos diante de uma ameaça biológica e de saúde pública, que pode ser contornada ou minimizada através de meios de transporte que apostam numa desaglomeração. Essa é a nova saída (ou não tanto assim) tanto no campo logístico quanto no bem-estar e saúde. 

Um modelo de cidade que vigora atualmente é aquele onde existe apenas um centro e para onde milhares de pessoas precisam se deslocar para cumprir suas atividades diárias. Tudo indica que esse é um formato ultrapassado, pois ele justamente depende de um volume alto de pessoas se locomovendo juntas e aglomeradas. Isso não é mais apenas um problema de conforto e qualidade de vida. Agora essa questão esbarra mesmo na manutenção da vida. 

O que seria um modelo alternativo? O modelo de cidades policêntricas, ou seja, cidades onde os bairros são auto-suficientes. Um exemplo muito interessante é o da prefeita de Paris, Anne Hidalgo, que instaurou uma estrutura onde tudo que se precisa pra viver está a 15 minutos da casa dos indivíduos. É um modelo que foi apelidado de “¼ de hora”. Ora, tendo as facilidades e prédios a menos de meia hora de casa, nenhuma locomoção se apresenta como ameaça para a mobilidade da cidade. Os bairros literalmente se desafogam, o que significa menos pessoas nas ruas e nos meios de transporte. Bem diferente da realidade brasileira, onde o cidadão médio teria que andar no mínimo 2 horas de bike para chegar no trabalho. Em outras palavras, para trabalhar ou ir à escola de bike no Brasil é preciso ser atleta. 

Já existem pesquisadores em universidades renomadas (como a UFPB) que analisam um possível desenho policêntrico do urbanismo brasileiro. Até mesmo alguns centros urbanos estão sendo construídos dentro dessa lógica, como em São Gonçalo Amarante (Ceará), que está sendo chamada de de primeira smart city do país. Esses estudos e iniciativas apontam para formatos de cidade onde o cidadão precisa ter menos contato com outrem, o que de uma só vez reduz grandes engarrafamentos e garante o distanciamento social tão importante nessa nossa era.

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