CRÔNICA DE UM ANTICARROCRATA

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Aprendi a andar de bicicleta aos 12 anos. Passei por todo aquele circuito clássico da infância: põe rodinha, tira rodinha, come terra, se estabaca no chão, volta ralado pra casa, briga com meninos mais velhos do condomínio. No meu caso, pedalar era quase uma necessidade médica. Eu era bem gordinho, precisava perder peso urgente. A bicicleta parecia ser a única opção.

Minha mãe me seguia de carro no caminho para escola. Ela queria ter certeza que eu saberia me comportar e me virar no trânsito andando de magrela. Eu tinha tudo para não gostar de pedalar, afinal essa marcação cerrada era bem broxante. Mas quando você é pequeno e não pode pegar um carro, a bicicleta é seu único meio de transporte autônomo. É libertador. É só sentar no banco e ir.

E eu fui. Aos 16, já estava bem mais confortável com meu meio de transporte, mas a obesidade ainda me perseguia. Ainda tinha peso a perder e as pizzas e hambúrgueres da escola não ajudavam nesse processo. As escolas querem te educar da melhor forma possível, mas te deseducam na mesma medida.

Aos poucos fui percebendo que andar de bicicleta tinha se tornado o meu jeito de estar no mundo. Se eu parasse, eu tombava. Era minha meditação e minha academia. Corpo & mente numa tacada só. Fui espalhando a ideia entre meus amigos, mostrando que era um movimento possível, ajudando-os a comprar suas próprias bicicletas. Ao entrar na juventude, meu pai me ofereceu um carro e eu recusei solenemente. A carrocracia não combinava comigo.

Hoje em dia, vou ao trabalho todos os dias de bicicleta. Mesmo sendo longe de onde eu moro, eu pego minha bike, dobro, coloco embaixo do braço e completo o trecho de ônibus. Vou de bike para todos os cantos. Balada, barzinho, nascimento de filho de amigo, enterro, churrasco, passeata. Tudo.

A bicicleta me permite conhecer a cidade de uma forma que pessoas motorizadas não alcançam. Conheço estátuas que você nunca viu, falo com pessoas que você nunca imaginou existirem, conheço outras cidades melhor do que seus moradores, ângulos que você não percebeu porque estava muito preocupado com o que está na frente do seu para-brisa.